sexta-feira, 10 de julho de 2009

A POESIA DA GRANDE BATALHA, por Eugenia Ribas-Vieira

Elizabeth, A era de ouro, a continuação do mesmo diretor Shekar Kapur para o filme Elizabeth, de 1998, deixa a desejar. A expectativa da grande batalha contra a imbatível Espanha, no momento histórico sublime do auge da Guerra Santa e da descoberta do Novo Mundo, cai por ribanceiras de frases simples, palavras óbvias e imagens extravagantes.
Kapur pode ser um excelente diretor de arte, mas talvez tenha lhe faltado literatura para tratar com mais cautela o momento da grande batalha. Não é apenas de cenografia que precisamos para construir este momento, nem são apenas as armaduras que irão empolgar o espectador. Isso, também.
No início de uma batalha, o medo frente à imagem de um exército gigantesco que se aproxima clama a importância de um líder com as palavras que irão encorajar seus próprios homens a ir em frente, a lutar. Elizabeth, no filme, traz algumas palavras de amor, doces demais para o que se pedia. Doce demais inclusive para o sotaque britânico trabalhado por Cate Blanchett. Sentimos como se não houvessem palavras, e a partir deste momento, o filme torna-se inverossímil. Como um grande líder pode ter palavras tão fracas?
Foi necessário buscar na prateleira "Henrique V", de W. Shakespeare, e dublar Cate Blanchett em voz alta com o discurso da Batalha de Azincourt. Por meio de poucas palavras, Henrique V restaura o ânimo de seus guerreiros, paralizados à frente de um adversário mais numeroso e descansado. Para quem não conhece, uma palinha do texto de Shakespeare, que vai muito além do de Elizabeth no filme: Nós, estes poucos; nós, um punhado de sortudos; nós, um bando de irmãos... pois quem hoje derrama o seu sangue junto comigo passa a ser meu irmão. Pode ser homem de condição humilde; o dia de hoje fará dele um nobre. E os nobres que ficaram na Inglaterra, que estão agora em suas camas, irão julgar-se amaldiçoados porque não estavam aqui...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PINTER E A MULHER MISTERIOSA, por Vivian Wyler


É um dos casos de adaptação cinematográfica mais perfeitos que já vi. De um lado, o texto preciso e precioso de John Fowles, autor que antes de "A mulher do tenente francês", já havia visitado telas e livrarias brasileiras com seu "O colecionador" ( 1969), de William Wyler, com Samantha Eggar e Terence Stamp. Naquele livro (e filme), já estava a essência de Fowles. A tensão sexual, a sociedade como repressão, a ciência e o colecionismo como formas predatórias. Do outro lado, o adaptador, nada menos que o dramaturgo britânico Harold Pinter. O desafio era considerável. Como verter para o cinema uma criação literária que podia ser lida em dois planos, que misturava e subvertia os limites da realidade e da ficção, criando pés de página de um narrador que a tudo questionava?
Pois Pinter fez um trabalho genial. Construindo o roteiro em dois planos- o de um filme, que está sendo feito, e o da narrativa do próprio filme- permitiu-se manter o distanciamento crítico de Fowles e ainda, de quebra, proporcionou a Meryl Strep e Jeremy Irons, sob a direção de Karel Reiz (1981), um tour de force interpretativo.
A Objetiva (selo Alfaguarra) relançou recentemente o livro. Vale a pena entrar no universo de Fowles, não só de "A mulher do tenente francês", mas de "O mago" e o (inédito em português) "The ebony tower", uma surpreendente aula de realização ficcional. O filme foi lançado em DVD, também há pouco tempo, e pode ser obtido na livraria Cultura, por exemplo. Vale duplamente. Não só para avaliar o trabalho respeitoso e criativo de Pinter, como para ver o que é abordar a era vitoriana conjurando todas suas belas imagens, sem desperdiçar as questões importantes e latentes de um momento transformador. O lugar da mulher na sociedade, quando ela tinha que vencer as limitações de quem não nasceu na classe certa. O darwinismo e os dilemas do discurso científico. E, marca registrada de Fowles, o dedo na ferida do discurso amoroso: o que é melhor numa relação, a verdade sensaborona ou as fantasias instigantes com que a recobrimos?

domingo, 5 de julho de 2009

A LUZ NA ESCURIDÃO


" Imagine a cena: cerca de trinta pessoas sentadas em um ambiente escuro. O local é o porão do Grand Café em Paris, França. É o dia 28 de dezembro de 1895. As pessoas vieram assistir à última descoberta tecnológica do incrível século dezenove.
Os espectadores não sabem exatamente o que verão, mas esperam ser extasiados. Essa é a era em que novidades maravilhosas brotam diariamente. Nos últimos 20 anos eles testemunharam a iluminação das cidades, ouviram a voz humana ser lançada através de cabos e máquinas que falam e cantam, ficaram esgazeados vendo subir arranha-céus, e muito mais.
Subitamente, um facho de luz vindo de trás da audiência brilha numa superfície pendurada numa parede distante. Então, para surpresa de todos, imagens diferentes de tudo que já viram aparecem projetadas na superfície. Não são fotografias, apenas, nem desenhos animados. São pessoas reais, e elas estão andando de verdade!
O filme dura alguns minutos e é seguido por outro, intitulado "Trabalhadores saindo da Fábrica Lumière". É a fábrica do pai de Auguste e Louis Lumière, os irmãos franceses que fizeram esses filmes. Os filmes são preto e branco e os trabalhadores se movem de forma engraçada, salteada. Mas, ainda assim... são imagens de pessoas como são na vida real. Incrível!
Outros filmes seguem, todos com cenas da vida diária- "Alimentando o bebê", "A corrida de sacos", e até uma brincadeira, um garoto pisando numa mangueira de jardim, e quando o jardineiro olha para o final da mangueira, para ver porque a água não sai, o garoto levanta o pé e o jardineiro fica inteiro molhado.
Os filmes parecem tão reais que a sequência de um trem chegando na estação faz com que alguns espectadores gritem e corram procurando proteção, com medo de que um trem de verdade esteja a ponto de derrubar o teatro.
Após vinte minutos, as luzes acendem e o espetáculo acabou. Dez filmes curtos. Os primeiros filmes."

tradução de trecho extraído do livro Before Hollywood- from shadow play to silver screen, Paul Clee. New York: Clarion Books, 2005.

VER COM OS OLHOS DA IMAGINAÇÃO


A questão é antiga e mudou, com o tempo. Se antigamente qualquer professor ou pai tinha horror à ideia de que o filho não lia o livro, preferindo substitui-lo pelo filme, hoje o professor leva o filme para a sala de aula porque sabe que um abre a porta para o outro.
Já há algum tempo professores de história colocam seus alunos para assistir Brancaleone, de Mario Monicelli, para que entendam melhor a Idade Média, professores de literatura sugerem assistir Decameron, de Pasolini, para evitar o confronto com Bocaccio em alunos ainda pouco afeitos a linguagens não contemporâneas, professores de filosofia garantem que A Doce Vida, de Fellini pode ser a melhor introdução ao existencialismo.
Com os pais, dá-se o mesmo. É só se dar ao trabalho de experimentar. Pegar o filme na locadora, deixar o livro a postos, e pronto.
Pode existir passagem mais deliciosa para a literatura inglesa do século XVIII-XIX do que os filmes baseados em Jane Austen? Ver Orgulho e preconceito e depois ler o livro, página a página, é perceber que não há imagem que substitua o humor sutil da inglesa provinciana e modorrenta que hoje é cultuada em todo o mundo. Ou, ainda mais fácil. Ver O clube de leitura de Jane Austen e repassar, uma a uma, cada uma de suas obras e percebê-las atuais- quase livros de autoajuda!
Os filmes de Curabula é um jogo. Pegue um filme, um livro, busque o maior número de conexões, discuta, analise qual o melhor, o pior. Mas um fato é indiscutível: os olhos da imaginação fazem filmes insuperáveis e totalmente individuais. O caminho do filme ao livro é magnífico, e nada desprezível, mas não se compara ao caminho do livro ao filme. Quando os olhos da sua imaginação se reconhecem nos olhos da imaginação de um diretor, o prazer é incomparável.