sexta-feira, 26 de março de 2010

A FERA INTERIOR , por Amanda Orlando



Mês passado, entrou em cartaz em salas de exibição de todo o país O lobisomem, de Joe Johnston, mais conhecido pela direção dos blockbusters juvenis Jumanji! e Querida, encolhi as crianças, e com as atuações de Anthony Hopkins e Benicio del Toro no papel principal. O filme é um remake do clássico de horror da Hammer Filmes The Wolf Man, de 1941, estrelado por Lon Chaney, que junto com Bela Lugosi e Boris Karloff imortalizou algumas das figuras mais míticas do cinema de terror.

O roteiro desta nova versão de O lobisomem demorou dois anos para receber o aval da Paramount, que exigiu uma série de alterações e refilmagens ao longo da produção. A grande estrela da película, porém, passa ao largo de seu roteiro, que é de fato simplório e previsível, apesar de ser assinado pelo genial Andrew Kevin Walker, de Seven, os sete crimes capitais. As interpretações de uma apagado, ainda que respeitável, Anthony Hopkins e de Benicio del Toro, sedutor, embora não muito convincente, também estão longe de serem um chamariz para o filme.

O que torna O lobisomem uma obra notável, de um esmero tão profundo que é capaz de comover qualquer fã não apenas de horror, mas, principalmente, da boa literatura vitoriana, é sua ambientação. Todos os elementos caros à época de ouro da narrativa gótica estão lá: a mansão sombria, isolada e cercada por mistérios imemoriais, o cavaleiro inglês sedutor, reservado, do qual apenas seus inseparáveis cães de caça parecem conhecer os segredos, a donzela virgem, mas destemida, ciganos que lançam maldições e prevêem catástrofes, os manicômios e suas máquinas de tortura em nome da ciência, catacumbas sombrias, a sensualidade insinuada e o pavor sutil que vai crescendo no espectador sempre que a noite cai sobre a tela, revelando sombras e fantasmas que se materializam muito mais como reflexos de nossos próprios medos do que meros estratagemas para causar calafrios em uma platéia já acostumada com agruras muito mais pavorosas do que as retratadas pela ficção.

Em uma época em que todos os filmes de terror se baseiam especialmente em computação gráfica e efeitos especiais, é notável ver como uma boa obra do gênero ainda pode ser realizada dando-se mais ênfase ao clima e a ambietanção do que ao monstro propriamente dito. Claro, os efeitos utilizados durante a transformação do ressentido Lorde Lawrence Talbot em lobo são impressionantes, embora não se mostrem como nenhuma surpresa para um público que já assistiu a Avatar e Trezentos, só para citar exemplos recentes. Nada que represente um desafio para as afiadas equipes de efeitos visuais a disposição da indústria cinematográfica americana. Neste caso, todos os louros devem ser merecedidamente oferecidos aos times de pesquisa, figurino e cenografia. Raras vezes uma obra de terror vitoriano foi tão condizente com o período. Tanto que, para mim, fã assumida de tudo que possa se considerar até mesmo vagamente gótico, foi uma tristeza ver o palacete campestre onde se passa a maior parte da trama ser destruído durante o filme. Confesso que lutei contra algumas lágrimas teimosas diante da cena.

O lobisomem é a prova que um filme de realização problemática pode servir extremamente bem não apenas ao seu público como também à literatura. Depois de assisti-lo, torna-se muito mais fácil vislumbrar certos meandros da rígida, preconceituosa e discrepante sociedade vitoriana e entender porque só eles, meus vitorianos tão góticos, tão estramos e tão queridos, poderiam ter criado a maioria dos conceitos de terror, medo e morte que carregamos conosco até os dias de hoje.

quarta-feira, 24 de março de 2010

PARA VER E RELER, por Maria Alice Paes Barretto



Na época de seu lançamento, em 1990, O céu que nos protege, filme de Bernardo Bertolucci baseado no magnífico livro de Paul Bowles, foi duramente criticado. Primeiro porque os diálogos que eram ditos em árabe - a trama se passa na África do Norte - não foram traduzidos. Segundo, o ritmo lento de certas cenas deixava alguns espectadores impacientes, certamente os mais chegados aos filmes de ação. Como todo filme denso, que deve ser visto e revisto, uma duas, três vezes, para se sentir na carne o mesmo estranhamento que as personagens estão vivendo na tela - ou no texto - se não compreendermos seus mecanismos intrínsecos só poderemos, mesmo, chegar a conclusões precipitadas e ... não gostar.

Porque o livro é maravilhoso, o filme é lindo e o clima criado por Bertolucci é perfeito para se sentir todo o vazio, toda a intensidade da busca por si mesmo e pelo outro que se passa na mente e na alma dos protagonistas, toda a difícil, sofrida e árida viagem interior que eles realizam à procura do que, no final, queremos da vida - o amor, a plenitude. Tanto como o livro, o filme consegue mostrar essa incrível busca pelo percurso a ser desvendado para se chegar ao conhecimento interior, tenta entender que tipo de relacionamentos se criam e se desfazem. E é por isso mesmo que acho que ambos - livro e filme - se tornam tão atuais ao falarem das dificuldades da vida de qualquer um de nós.

A história gira em torno de um casal americano que viaja ao Marrocos sem data para voltar, e como eles próprios afirmam, "como viajantes, não turistas". Os dois vão acompanhados de um amigo, e esperam que a novidade de um país africano e as novas experiências que acreditam que vão encontrar pela frente consigam revigorar um relacionamento de dez anos de um casamento totalmente desgastado.

O filme mostra a louca esperança dessas pessoas para conseguir recosturar e recompor esse relacionamento complicado, marcado por incompreensões, incomunicabilidades, pela falta de diálogos e pela impossibilidade da tradução de diálogos quando cada um fala a sua própria língua, quando cada um se fecha em seu próprio ego. A sensação que nos passam os personagens é a mesma do espectador diante da não tradução do árabe - ninguém se entende.

O céu que nos protege não é um livro simples, nem mesmo o filme. Tudo nele é intenso. Para melhor entendê-lo é preciso vê-lo mais de uma vez, pois Bertolucci imprime o ritmo lento à trama para que, no fundo, tenha tudo a ver não só com o momento por que passam os personagens quanto pelo clima árido do Saara. Aliás, o filme apresenta uma fotografia belíssima, que capta de forma muito bonita as belezas naturais do deserto. Eu adoro - o filme e o livro. Por isso, apesar de terem sido lançados há tanto tempo, acho que valem a pena.