
Mês passado, entrou em cartaz em salas de exibição de todo o país O lobisomem, de Joe Johnston, mais conhecido pela direção dos blockbusters juvenis Jumanji! e Querida, encolhi as crianças, e com as atuações de Anthony Hopkins e Benicio del Toro no papel principal. O filme é um remake do clássico de horror da Hammer Filmes The Wolf Man, de 1941, estrelado por Lon Chaney, que junto com Bela Lugosi e Boris Karloff imortalizou algumas das figuras mais míticas do cinema de terror.
O roteiro desta nova versão de O lobisomem demorou dois anos para receber o aval da Paramount, que exigiu uma série de alterações e refilmagens ao longo da produção. A grande estrela da película, porém, passa ao largo de seu roteiro, que é de fato simplório e previsível, apesar de ser assinado pelo genial Andrew Kevin Walker, de Seven, os sete crimes capitais. As interpretações de uma apagado, ainda que respeitável, Anthony Hopkins e de Benicio del Toro, sedutor, embora não muito convincente, também estão longe de serem um chamariz para o filme.
O que torna O lobisomem uma obra notável, de um esmero tão profundo que é capaz de comover qualquer fã não apenas de horror, mas, principalmente, da boa literatura vitoriana, é sua ambientação. Todos os elementos caros à época de ouro da narrativa gótica estão lá: a mansão sombria, isolada e cercada por mistérios imemoriais, o cavaleiro inglês sedutor, reservado, do qual apenas seus inseparáveis cães de caça parecem conhecer os segredos, a donzela virgem, mas destemida, ciganos que lançam maldições e prevêem catástrofes, os manicômios e suas máquinas de tortura em nome da ciência, catacumbas sombrias, a sensualidade insinuada e o pavor sutil que vai crescendo no espectador sempre que a noite cai sobre a tela, revelando sombras e fantasmas que se materializam muito mais como reflexos de nossos próprios medos do que meros estratagemas para causar calafrios em uma platéia já acostumada com agruras muito mais pavorosas do que as retratadas pela ficção.
Em uma época em que todos os filmes de terror se baseiam especialmente em computação gráfica e efeitos especiais, é notável ver como uma boa obra do gênero ainda pode ser realizada dando-se mais ênfase ao clima e a ambietanção do que ao monstro propriamente dito. Claro, os efeitos utilizados durante a transformação do ressentido Lorde Lawrence Talbot em lobo são impressionantes, embora não se mostrem como nenhuma surpresa para um público que já assistiu a Avatar e Trezentos, só para citar exemplos recentes. Nada que represente um desafio para as afiadas equipes de efeitos visuais a disposição da indústria cinematográfica americana. Neste caso, todos os louros devem ser merecedidamente oferecidos aos times de pesquisa, figurino e cenografia. Raras vezes uma obra de terror vitoriano foi tão condizente com o período. Tanto que, para mim, fã assumida de tudo que possa se considerar até mesmo vagamente gótico, foi uma tristeza ver o palacete campestre onde se passa a maior parte da trama ser destruído durante o filme. Confesso que lutei contra algumas lágrimas teimosas diante da cena.
O lobisomem é a prova que um filme de realização problemática pode servir extremamente bem não apenas ao seu público como também à literatura. Depois de assisti-lo, torna-se muito mais fácil vislumbrar certos meandros da rígida, preconceituosa e discrepante sociedade vitoriana e entender porque só eles, meus vitorianos tão góticos, tão estramos e tão queridos, poderiam ter criado a maioria dos conceitos de terror, medo e morte que carregamos conosco até os dias de hoje.
