quarta-feira, 22 de julho de 2009

SOU UM DELES, por Vivian Wyler


A mania começou com uma monografia para o mestrado. A partir do excelente livro "Freaks", de Leslie Fiedler, uma investigação da permanência e infiltração das feiras de aberrações na cultura pop americana, analisar o grotesco humano na cultura brasileira. Valia tudo: literatura, show de travestis, Os Leopardos, programas de televisão. Dos "freaks" filtrados por Fielder, vieram os freaks analisados por Robert Bogdan no ensaio "Freak Show- presenting human oddities for amusement and profit", uma história do circo americano Barnum, começando pelos chamados "sideshows", as barracas que mostravam seres humanos defeituosos transformando-os, com criatividade e perversidade, em seres exóticos vindos de países longínquos ou planetas distantes.
A mãe(eu) passou a mania para a filha. Num mesmo ano, eu a vi descobrir "O homem elefante", de David Lynch, as fotografias de Diane Arbus e o livro "Freaks- aberrações humanas. A coleção Akimitsu Naruyama", publicada pela Livros e Livros, de Portugal. Para a imersão ser completa, no entanto, faltava o über-cult, o filme que cristalizou tudo isso: "Circo dos horrores" ou "A parada de monstros" ou simplesmente "Freaks", o filme de Tod Browning, de 1932, que teve a audácia de, ao invés de usar maquiagem e efeitos duvidosos, convocar para o elenco verdadeiros freaks, artistas já então em decadência, à medida que os shows de aberrações iam sendo engolidos pelos circos propriamente ditos.
O filme é considerado um dos mais assustadores de todos, conhecido por deixar pessoas sem dormir e por ter impressionado Diane Arbus a ponto de faze-la desistir da moda e investir nos seres humanos à margem da estética reinante. Dificilmente terá sido essa,exatamente, a visão de Browning, ele mesmo um artista que nasceu entre as barracas e que faz questão de retratar os normais do seu filme como monstruosos e os supostos monstros como amoráveis.
Familiarizadas com os personagens do filme, minha filha e eu não conseguimos sentir horror algum. É claro que o suspense está lá. O uso impressionante da iluminação e dos efeitos especiais. A maldade tangível. Mas estão lá também os personagens que já conhecíamos de tantos livros. Koo-Koo, a mulher pássaro, as pinheads ou "crianças Astecas" Aurora e Natali, Le-Ola, a mulher que era homem de um lado e mulher do outro, supostamente nascida no Brasil, em 1910; Zelda, a minúscula ( 99cm) sensação da Feira Mundial de Saint-Louis, Jim Milton Malone, o homem Magro, Commodore Nutt, o anão de nome pomposo, como o eram, também o general Tom Thumb e o Conde Primo Magri e, "last but not least" as siamesas encantadoras, Daisy e Violet Hilton. Celebridades de seu tempo, num registro precioso.Uma revista "Caras" do mundo "freak".
"Freaks" merece ser visto. É uma aula de cinema, sobretudo para quem gosta de horror. Mas eu o proponho como parte de um cardápio no qual poderiam ser incluídos, também "Edward Mãos de Tesoura" e "Peixe Grande", de Tim Burton, dois filmes contemporâneos que atestam a permanência do "sideshow" na cultura americana. Ou qualquer David Lynch. Ou "O mágico de Oz", com Judy Garland e vários midgets arrebanhados para celebrar a morte da Bruxa Má do Oeste. De quebra, para substanciar a seleção cinematográfica, proponho a leitura de dois autores americanos. Katharine Dunn e seu "Amor de Monstro", a história de um circo familiar, e os dois primeiros livros de John Irving, "O mundo segundo Garp" e "Hotel New Hampshire".
Ao final dessa excursão, é só repetir o mantra "Gooble, gooble, One of us", e ter a certeza: é impossível não se apaixonar por esses deserdados da pretensa normalidade e se sentir, em espírito, um deles.