(Des hommes et des dieux, Xavier Beauvois - França) - A leitura da sinopse pode dar a impressão de se tratar de um filme entediante: a história, inspirada em fatos reais, de oito monges franceses que vivem sua rotina num mosteiro da Argélia, ajudando a comunidade local, majoritariamente muçulmana, até a paz ser ameaçada por ataques de fundamentalistas islâmicos. Beauvois cria, no entanto, uma aura de tal forma envolvente que seduz o espectador tanto pela contemplação do cotidiano no mosteiro, em que os cânticos religiosos entoados por vozes "divinas" transmitem beleza e serenidade, como pela abordagem honesta de um dos temas mais polêmicos da atualidade: o "terrorismo" - separando com sabedoria o joio do trigo. O filme recebeu, merecidamente, o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
Um elenco impecável, encabeçado por Lambert Wilson, confere a cada um dos monges dimensão humana. Dúvida, medo, doação, generosidade e fé entram em conflito numa situação limite, quando a própria vida está em jogo –ali não há heróis nem deuses, mas homens. Comovente a cena em que os monges decidem se vão abandonar o seu "rebanho" muçulmano, para o qual representam os "galhos firmes da árvore em que estão pousados", ou permanecer entre eles, sabendo que podem ser mortos. Também memorável aquela em que se encontram frente a frente os líderes do mosteiro e de uma facção islâmica, estabelecendo-se um diálogo pautado pelo respeito mútuo, apesar do antagonismo de crenças e atos.
Se motivos religiosos são capazes de fazer o homem praticar o mal com empenho e felicidade jamais vistos, como disse Pascal, o poder político e econômico também faz estragos muitas vezes irreparáveis. Xavier Beauvois não exime a França de sua parcela de culpa pelos conflitos de cunho "aparentemente" apenas religioso em curso em ex-colônias africanas. No filme, o governo argelino atribui à colonização, que os manteve atrasados, as causas mais profundas para a formação e crescimento dos grupos radicais. Contrapondo-se às motivações de domínio, ganância e prepotência, a postura dos monges, solidária e autêntica, de entrega total à fé e a serviço do próximo, ecoa como um alento de esperança na humanidade. Uma humanidade que se reencontra com sua face divina.
