

Pensei em escrever sobre Oliver Twist, criação encantadora de Charles Dickens. Tão irresistível que mereceu inúmeras adaptações para o cinema. Vi a primeira delas, o musical de Carol Reed (1968), quando tinha 14 anos,e me apaixonei por tudo. Pela Londres vitoriana, pela pureza do personagem, contrastando com o vicioso Bill Sikes, o bandido,interpretado pelo intenso Oliver Reed, por Fagin e seus pivetinhos, por Nancy, a prostituta com instintos maternais. Li o livro depois do filme. Como todo folhetim de Dickens, ele não decepcionou: são filmes ou minisséries em embrião, com seus muitos personagens, recriação minuciosa de época e voltas e reviravoltas na trama. Muitos anos depois dessas descobertas, encontrei a versão de David Lean (1948), com Alec Guinness eternizando Fagin e uma Londres obviamente cenográfica, em que a metáfora da cidade bombardeada e da miséria que se ali se instalou em decorrência da Segunda Guerra, era mais do que clara. Não deixei de registrar a versão de Polanski, de 2005, a meu ver a mais fraca delas, por seu maniqueísmo e tentativa de emprestar uma maquilagem politicamente correta ao venal Fagin, ainda mais tendo eu fresca na memória a versão teatral, que ficou anos em cartaz na capital inglesa, e era fidelissima à obra de Dickens.
Este texto, no entanto, é para falar de outro desajustado igualmente adorável. Antoine Doinel, o alter-ego de François Truffaut. Ao rever "Os incompreendidos", ontem, me dei conta dessa ligação que não havia feito antes. Doinel não é órfão de pai e mãe, mas órfão da sorte,da complacência, da compreensão. É o pequeno ser indomesticável, que Truffaut retrataria novamente, mais tarde, em "O menino selvagem" (1969). Alguém com instintos confusos, mas puros, desarmado diante de um mundo com regras que não pode apreender. É isso que o liga a Oliver, o menino que pede mais sopa onde isso não é possível, que acredita no amor, mesmo que diariamente lhe recusem até mesmo a amizade. Doinel irá, vida afora, filme após filme ("Beijos proibidos", "Domicílio conjugal", "Amor em fuga") afirmando que não se apaixona por suas namoradas, mas pela família delas, pela sensação de lar que não teve. É esta sensação de lar que faz Oliver se sentir em casa com Fagin e os meninos, tão bem quanto, depois, se sentirá na casa de seu avô verdadeiro.
Não há moralismo em Oliver ou Doinel. O amor é lindo, não importa quem seja seu agente, bandido ou mocinho. Transformar essa busca imaterial em obra de arte só é possível, no entanto, quando se cai nas mãos de um mestre da forma que, ao mesmo tempo, tem a delicada percepção da alma humana, varrendo a pieguice e brindando o leitor/espectador com a carência essencial. Aos mestres Charles Dickens e François Truffaut, meu carinho.