
É um dos casos de adaptação cinematográfica mais perfeitos que já vi. De um lado, o texto preciso e precioso de John Fowles, autor que antes de "A mulher do tenente francês", já havia visitado telas e livrarias brasileiras com seu "O colecionador" ( 1969), de William Wyler, com Samantha Eggar e Terence Stamp. Naquele livro (e filme), já estava a essência de Fowles. A tensão sexual, a sociedade como repressão, a ciência e o colecionismo como formas predatórias. Do outro lado, o adaptador, nada menos que o dramaturgo britânico Harold Pinter. O desafio era considerável. Como verter para o cinema uma criação literária que podia ser lida em dois planos, que misturava e subvertia os limites da realidade e da ficção, criando pés de página de um narrador que a tudo questionava?
Pois Pinter fez um trabalho genial. Construindo o roteiro em dois planos- o de um filme, que está sendo feito, e o da narrativa do próprio filme- permitiu-se manter o distanciamento crítico de Fowles e ainda, de quebra, proporcionou a Meryl Strep e Jeremy Irons, sob a direção de Karel Reiz (1981), um tour de force interpretativo.
A Objetiva (selo Alfaguarra) relançou recentemente o livro. Vale a pena entrar no universo de Fowles, não só de "A mulher do tenente francês", mas de "O mago" e o (inédito em português) "The ebony tower", uma surpreendente aula de realização ficcional. O filme foi lançado em DVD, também há pouco tempo, e pode ser obtido na livraria Cultura, por exemplo. Vale duplamente. Não só para avaliar o trabalho respeitoso e criativo de Pinter, como para ver o que é abordar a era vitoriana conjurando todas suas belas imagens, sem desperdiçar as questões importantes e latentes de um momento transformador. O lugar da mulher na sociedade, quando ela tinha que vencer as limitações de quem não nasceu na classe certa. O darwinismo e os dilemas do discurso científico. E, marca registrada de Fowles, o dedo na ferida do discurso amoroso: o que é melhor numa relação, a verdade sensaborona ou as fantasias instigantes com que a recobrimos?
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