sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CORONEL HANS LANDA & AUGUSTE DUPIN, por Eugenia Ribas-Vieira

Ao saír da sessão de Bastardos e Inglórios, novo filme do Tarantino, fixa-se, sem dar trégua, a figura do Coronel Hans Landa, o Caçador de Judeus. Mas não só a atuação de Christoph Waltz é a responsável por tal fascínio espontâneo. É sua inteligência, sem dúvida, uma das causas; digo mais, seu método.
Desde a primeira cena do filme, em que Landa calmamente percebe a família judaica debaixo do assoalho, fica a máxima: pensar como o opositor. Muitos dos agentes falham porque nem avaliam o intelecto que se lhes opõe. Este foi o gatilho disparado em direção ao monsieur Auguste Dupin, de Edgar Alan Poe.
Em A carta roubada , Poe desmembra o raciocínio do detetive, e consegue analisar sua intuição por um filtro de cálculos cartesianos. Dupin apresenta a habilidade de fazer do que é próprio do humano, um esquema matemático. Com isso, não existem erros de cálculos – deu-lhe por achar a carta, é claro, simplesmente atirada sobre o porta-cartões.
Da mesma forma, o Hans Landa de Tarantino sabe, desde o momento que entra na casa da primeira cena, que a família vizinha não teria a habilidade para fugir para a Espanha. Era muito mais simples; a capacidade humana é muito mais simples: estariam escondidos onde mais se esperaria. Hans Landa explica ao francês, como o faz a todos que encontra, que apenas pensa como um judeu, que em situação de desepero foge de qualquer maneira, e por isso, sempre consegue encontrá-lo. Lembro agora que o mesmo faz o instrutor do FBI para descobrir o que faria Hannibal Lecter, em Silêncio dos Inocentes.
Pensar como o opositor – a identificação do intelecto do raciocinador com o do seu oponente, escreve Poe.
O que me surpreendeu no detetive de Tarantino, no entanto, é que Hans Landa não tem uma ética a seguir. Esta crítica pode ser considerada maniqueísta – e de forma alguma gostaria de ver este desenho levado ou ao bem ou ao mal. Minha frustração – agora explico – foi ver uma personalidade tão afiada e perspicaz, sem um objetivo maior. Hans Landa mostra-se, quando lhe é oportuno, não atrelado à SS (a milícia nazista). Sua perspicácia também é usada para o próprio benefício.
O que de início era uma crítica, no entanto, agora quer ser algo mais espetacular. Minha conclusão é de que Hans Landa de Tarantino é o primeiro detetive que ultrapassa o Dupin de Poe (claro que Poe tem seus méritos pelo pioneirismo). Hans Landa consegue surpreender o próprio espectador. Se fossemos reescrever A carta roubada à moda de Tarantino, Dupin, ao final, não devolveria o verdadeiro documento ao monsieur G., comissário de polícia. Ele forjaria uma carta, usaria de sua credibilidade para que fosse confiável, e ficaria com os méritos do herói, devolvendo ele próprio a carta à polícia. Dupin, com esta ação, deixaria inclusive o leitor com cara de bobo, assim como eu, ao sair da sessão de Tarantino.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

INVASORES DE CORPOS, por Vivian Wyler




 

Li o livro de Jack Finney, "Invasores de corpos", por acaso. Eu o encontrei na estante da casa da minha sogra, junto à Bíblia, a uma coleção de obras do Stefan Zweig e à biografia de São Francisco escrita por Nikos Kazantzakis, num modorrento verão, há muitos anos. Era um livro estranho num lugar inadequado e por isso, só por isso, comecei a lê-lo.Ficção científica, exceto por Ray Bradbury, não é o gênero com o qual me identifico habitualmente. O suspense inteligente de Finney, no entanto, me prendeu. Uma ficção a um passo do terror psicológico, onde seres vegetais de outras galáxias fabricam, a partir de vagens, clones humanos que têm tudo, exceto o essencial ao humano: o espírito. 

Porque gostei do livro, vi o filme de Don Siegel, de 1956, "Vampiros de almas". Um thriller excelente, em que a descoberta das vagens-casulos é o mais baixo dos pontos altos. Não vi a versão de Philip Kaufman, de 1978, com Donald Sutherland, que todos reputam muito boa. Tampouco vi o abacaxi chamado "A invasão", perpetrado em 2007 por Oliver Hirschbiegel e estrelado por Daniel Craig e Nicole Kidman.Mas vi a impactante versão de 1993, assinada pelo cult Abel Ferrara, e ambientada numa base militar..
O livro de Finney é perturbador e a ideia de seres em tudo iguais a suas matrizes, não fosse a incapacidade de expressar sentimentos, é tão bem colocada que permite reinterpretações e modernizações diversas, sem perda de substância da obra original.
Tudo isso me ocorre enquanto preparo mais blogs  que serão, em breve, conectados à nave-mãe Curabula Livroclube.
Tal como uma invasora de corpo eu preparo o blog todinho, cores e formas, diretrizes, e fico esperando, quietinha, o material que dará vida a mais esse blog, feito para tornar a matriz Curabula ainda mais rica e variada. Fico esperando o momento de soprar a essência no que é apenas vagem-casulo. Quando finalmente o blog está pronto para ir ao ar, deixo o leitor olhar nos olhos dele e ver o resultado. Como no livro e nos filmes, se o olhar vibrr de emoção, o: blog é verdadeiro, se parecer assustadoramente vazio, é um clone sem alma.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A LINGUAGEM LITERÁRIA NO CINEMA, Karin Pey


Chegou-me às mãos a edição mais recente da Revista Teorema, de agosto de 2009. Especializada na crítica e análise de filmes, a edição de numero 14 apresenta alguns textos significativos sobre a transposição da linguagem literária para o cinema.

Enéas de Souza comemora os 50 anos do filme “Hiroshima, Mon Amour” de Alain Resnais, lembrando que a importância dada à palavra, no roteiro literário da escritora Marguerite Duras, “assegura uma dimensão absolutamente lírica à imagem poética e cinematográfica” do filme. Ao não impor um roteiro mais apropriado para a tela, Resnais promove um forte encontro do cinema com a literatura, e conjuga a palavra com os movimentos das câmeras, neste seu primeiro longa metragem datado de 1959. Marcus Mello, por sua vez, aponta a habilidade do diretor Christophe Honoré ao adaptar a trama do romance “A Princesa de Clèves”, publicado no século XVII, que se materializou no filme “A Bela Junie”. Mas vai além, e narra o endosso dado pelo filme a indignação popular, sobre a opinião do atual presidente francês com relação à obra literária de Madame de Lafayette. Segundo Mello, o filme acabou assumindo um sentido de protesto político, após a afirmação de Nicolas Sarkozy de que o livro era uma obra inútil e ultrapassada. O fato gerou um movimento de defesa a esta obra literária, cujas vendas dispararam no país. No texto crítico sobre o filme “Budapeste”, Felipe Iszlay revela sua certeza sobre a impossibilidade de se adaptar a obra de Chico Buarque para o cinema. No livro, “a linguagem verbal não está a serviço de contar uma história qualquer, mas de contar uma história em que a língua é a personagem principal”. O autor reordena o espaço do romance por meio de jogos de linguagem, trabalhando com a substancialidade das palavras. De acordo com Iszlay, o filme de Walter Carvalho faz uma caricatura mal feita da obsessão do protagonista com a palavra e o universo da língua, produzindo um esvaziamento da narrativa que obrigou a equipe de filmagem a completar as lacunas, com adendos não encontrados no livro. Ao concluir sua análise, diz que houve falta de domínio sobre a linguagem da obra, o que não trouxe vida alguma ao filme. Luiz Bernardo Pericás, por sua vez, deixa claro que o roteirista Peter Buchman não foi feliz ao também se inspirar no livro “Passagens da Guerra Revolucionária-Congo”, de autoria de Che Guevara. Sob a forma de crônicas, a obra narra episódios e reflexões sobre a guerrilha e a luta na África que, de acordo com Pericás, agradam ao leitor. No entanto, o filme bipartido de Steven Soderbergh, “El Argentino” e “El Guerrillero” se apresenta quase como uma colcha de retalhos onde, entre outras falhas, há a omissão de episódios polêmicos e a supressão de personagens importantes, o que não condiz com o espírito revolucionário expresso pela palavra de Guevara no livro.

Os críticos acima, nos fazem refletir sobre a importância de se transmitir o real sentido da palavra e da linguagem escritas, enquanto testemunhas e formadoras de emoção, informação, e vida. Cabe, porém, ao leitor-espectador dar o seu próprio aval. Mas, a partir das análises publicadas pela revista, conclui-se que Resnais embasou seu filme com a vida contida na essência da palavra literária de Duras, evitando a transposição para o cinema de uma linguagem órfã de sentido e lirismo. Quanto à “Budapeste”, de Walter Carvalho, este se mostrou incapaz de revelar a natureza da personagem central, ou seja, a palavra na língua e na linguagem. Deste modo, impediu o espectador de refletir sobre as diferentes plásticas adotadas pela linguagem, reveladas pelo livro. O filme de Soderbergh é apenas em parte inspirado na escritura de Che Guevara. Ainda assim, havendo a intenção de transportar seu testemunho para o cinema, é preciso cuidado para não se negligenciar fatos expressos pelo próprio criador de relevantes eventos históricos. Embotar a compreensão da história, impossibilita a reflexão do espectador sobre um conteúdo político-social, que só recentemente tem sido exposto. A hábil adaptação de Christophe Honoré, do livro de Madame de Lafayette, permitiu aos franceses de retomar, para si mesmos, a propriedade sobre a palavra, tanto a literária e cinematográfica como a política. Se o roteiro de Soderbergh decapitou palavras que descrevem eventos e personagens históricos, o filme de Honoré uniu-se a reação popular contra o risco de se limar a importância de uma obra inteira. A população francesa, ao esbravejar em protesto, sobre um livro que não considera ser inútil e ultrapassado, impediu a ruptura do fio condutor das reflexões e das vivências expressas pela palavra, e pela linguagem de um estilo literário renovador, trazidas do século XVII até o século XXI.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

SOU UM DELES, por Vivian Wyler


A mania começou com uma monografia para o mestrado. A partir do excelente livro "Freaks", de Leslie Fiedler, uma investigação da permanência e infiltração das feiras de aberrações na cultura pop americana, analisar o grotesco humano na cultura brasileira. Valia tudo: literatura, show de travestis, Os Leopardos, programas de televisão. Dos "freaks" filtrados por Fielder, vieram os freaks analisados por Robert Bogdan no ensaio "Freak Show- presenting human oddities for amusement and profit", uma história do circo americano Barnum, começando pelos chamados "sideshows", as barracas que mostravam seres humanos defeituosos transformando-os, com criatividade e perversidade, em seres exóticos vindos de países longínquos ou planetas distantes.
A mãe(eu) passou a mania para a filha. Num mesmo ano, eu a vi descobrir "O homem elefante", de David Lynch, as fotografias de Diane Arbus e o livro "Freaks- aberrações humanas. A coleção Akimitsu Naruyama", publicada pela Livros e Livros, de Portugal. Para a imersão ser completa, no entanto, faltava o über-cult, o filme que cristalizou tudo isso: "Circo dos horrores" ou "A parada de monstros" ou simplesmente "Freaks", o filme de Tod Browning, de 1932, que teve a audácia de, ao invés de usar maquiagem e efeitos duvidosos, convocar para o elenco verdadeiros freaks, artistas já então em decadência, à medida que os shows de aberrações iam sendo engolidos pelos circos propriamente ditos.
O filme é considerado um dos mais assustadores de todos, conhecido por deixar pessoas sem dormir e por ter impressionado Diane Arbus a ponto de faze-la desistir da moda e investir nos seres humanos à margem da estética reinante. Dificilmente terá sido essa,exatamente, a visão de Browning, ele mesmo um artista que nasceu entre as barracas e que faz questão de retratar os normais do seu filme como monstruosos e os supostos monstros como amoráveis.
Familiarizadas com os personagens do filme, minha filha e eu não conseguimos sentir horror algum. É claro que o suspense está lá. O uso impressionante da iluminação e dos efeitos especiais. A maldade tangível. Mas estão lá também os personagens que já conhecíamos de tantos livros. Koo-Koo, a mulher pássaro, as pinheads ou "crianças Astecas" Aurora e Natali, Le-Ola, a mulher que era homem de um lado e mulher do outro, supostamente nascida no Brasil, em 1910; Zelda, a minúscula ( 99cm) sensação da Feira Mundial de Saint-Louis, Jim Milton Malone, o homem Magro, Commodore Nutt, o anão de nome pomposo, como o eram, também o general Tom Thumb e o Conde Primo Magri e, "last but not least" as siamesas encantadoras, Daisy e Violet Hilton. Celebridades de seu tempo, num registro precioso.Uma revista "Caras" do mundo "freak".
"Freaks" merece ser visto. É uma aula de cinema, sobretudo para quem gosta de horror. Mas eu o proponho como parte de um cardápio no qual poderiam ser incluídos, também "Edward Mãos de Tesoura" e "Peixe Grande", de Tim Burton, dois filmes contemporâneos que atestam a permanência do "sideshow" na cultura americana. Ou qualquer David Lynch. Ou "O mágico de Oz", com Judy Garland e vários midgets arrebanhados para celebrar a morte da Bruxa Má do Oeste. De quebra, para substanciar a seleção cinematográfica, proponho a leitura de dois autores americanos. Katharine Dunn e seu "Amor de Monstro", a história de um circo familiar, e os dois primeiros livros de John Irving, "O mundo segundo Garp" e "Hotel New Hampshire".
Ao final dessa excursão, é só repetir o mantra "Gooble, gooble, One of us", e ter a certeza: é impossível não se apaixonar por esses deserdados da pretensa normalidade e se sentir, em espírito, um deles.

domingo, 12 de julho de 2009

ADORÁVEIS ÓRFÃOS, por Vivian Wyler




Pensei em escrever sobre Oliver Twist, criação encantadora de Charles Dickens. Tão irresistível que mereceu inúmeras adaptações para o cinema. Vi a primeira delas, o musical de Carol Reed (1968), quando tinha 14 anos,e me apaixonei por tudo. Pela Londres vitoriana, pela pureza do personagem, contrastando com o vicioso Bill Sikes, o bandido,interpretado pelo intenso Oliver Reed, por Fagin e seus pivetinhos, por Nancy, a prostituta com instintos maternais. Li o livro depois do filme. Como todo folhetim de Dickens, ele não decepcionou: são filmes ou minisséries em embrião, com seus muitos personagens, recriação minuciosa de época e voltas e reviravoltas na trama. Muitos anos depois dessas descobertas, encontrei a versão de David Lean (1948), com Alec Guinness eternizando Fagin e uma Londres obviamente cenográfica, em que a metáfora da cidade bombardeada e da miséria que se ali se instalou em decorrência da Segunda Guerra, era mais do que clara. Não deixei de registrar a versão de Polanski, de 2005, a meu ver a mais fraca delas, por seu maniqueísmo e tentativa de emprestar uma maquilagem politicamente correta ao venal Fagin, ainda mais tendo eu fresca na memória a versão teatral, que ficou anos em cartaz na capital inglesa, e era fidelissima à obra de Dickens.
Este texto, no entanto, é para falar de outro desajustado igualmente adorável. Antoine Doinel, o alter-ego de François Truffaut. Ao rever "Os incompreendidos", ontem, me dei conta dessa ligação que não havia feito antes. Doinel não é órfão de pai e mãe, mas órfão da sorte,da complacência, da compreensão. É o pequeno ser indomesticável, que Truffaut retrataria novamente, mais tarde, em "O menino selvagem" (1969). Alguém com instintos confusos, mas puros, desarmado diante de um mundo com regras que não pode apreender. É isso que o liga a Oliver, o menino que pede mais sopa onde isso não é possível, que acredita no amor, mesmo que diariamente lhe recusem até mesmo a amizade. Doinel irá, vida afora, filme após filme ("Beijos proibidos", "Domicílio conjugal", "Amor em fuga") afirmando que não se apaixona por suas namoradas, mas pela família delas, pela sensação de lar que não teve. É esta sensação de lar que faz Oliver se sentir em casa com Fagin e os meninos, tão bem quanto, depois, se sentirá na casa de seu avô verdadeiro.
Não há moralismo em Oliver ou Doinel. O amor é lindo, não importa quem seja seu agente, bandido ou mocinho. Transformar essa busca imaterial em obra de arte só é possível, no entanto, quando se cai nas mãos de um mestre da forma que, ao mesmo tempo, tem a delicada percepção da alma humana, varrendo a pieguice e brindando o leitor/espectador com a carência essencial. Aos mestres Charles Dickens e François Truffaut, meu carinho.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A POESIA DA GRANDE BATALHA, por Eugenia Ribas-Vieira

Elizabeth, A era de ouro, a continuação do mesmo diretor Shekar Kapur para o filme Elizabeth, de 1998, deixa a desejar. A expectativa da grande batalha contra a imbatível Espanha, no momento histórico sublime do auge da Guerra Santa e da descoberta do Novo Mundo, cai por ribanceiras de frases simples, palavras óbvias e imagens extravagantes.
Kapur pode ser um excelente diretor de arte, mas talvez tenha lhe faltado literatura para tratar com mais cautela o momento da grande batalha. Não é apenas de cenografia que precisamos para construir este momento, nem são apenas as armaduras que irão empolgar o espectador. Isso, também.
No início de uma batalha, o medo frente à imagem de um exército gigantesco que se aproxima clama a importância de um líder com as palavras que irão encorajar seus próprios homens a ir em frente, a lutar. Elizabeth, no filme, traz algumas palavras de amor, doces demais para o que se pedia. Doce demais inclusive para o sotaque britânico trabalhado por Cate Blanchett. Sentimos como se não houvessem palavras, e a partir deste momento, o filme torna-se inverossímil. Como um grande líder pode ter palavras tão fracas?
Foi necessário buscar na prateleira "Henrique V", de W. Shakespeare, e dublar Cate Blanchett em voz alta com o discurso da Batalha de Azincourt. Por meio de poucas palavras, Henrique V restaura o ânimo de seus guerreiros, paralizados à frente de um adversário mais numeroso e descansado. Para quem não conhece, uma palinha do texto de Shakespeare, que vai muito além do de Elizabeth no filme: Nós, estes poucos; nós, um punhado de sortudos; nós, um bando de irmãos... pois quem hoje derrama o seu sangue junto comigo passa a ser meu irmão. Pode ser homem de condição humilde; o dia de hoje fará dele um nobre. E os nobres que ficaram na Inglaterra, que estão agora em suas camas, irão julgar-se amaldiçoados porque não estavam aqui...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PINTER E A MULHER MISTERIOSA, por Vivian Wyler


É um dos casos de adaptação cinematográfica mais perfeitos que já vi. De um lado, o texto preciso e precioso de John Fowles, autor que antes de "A mulher do tenente francês", já havia visitado telas e livrarias brasileiras com seu "O colecionador" ( 1969), de William Wyler, com Samantha Eggar e Terence Stamp. Naquele livro (e filme), já estava a essência de Fowles. A tensão sexual, a sociedade como repressão, a ciência e o colecionismo como formas predatórias. Do outro lado, o adaptador, nada menos que o dramaturgo britânico Harold Pinter. O desafio era considerável. Como verter para o cinema uma criação literária que podia ser lida em dois planos, que misturava e subvertia os limites da realidade e da ficção, criando pés de página de um narrador que a tudo questionava?
Pois Pinter fez um trabalho genial. Construindo o roteiro em dois planos- o de um filme, que está sendo feito, e o da narrativa do próprio filme- permitiu-se manter o distanciamento crítico de Fowles e ainda, de quebra, proporcionou a Meryl Strep e Jeremy Irons, sob a direção de Karel Reiz (1981), um tour de force interpretativo.
A Objetiva (selo Alfaguarra) relançou recentemente o livro. Vale a pena entrar no universo de Fowles, não só de "A mulher do tenente francês", mas de "O mago" e o (inédito em português) "The ebony tower", uma surpreendente aula de realização ficcional. O filme foi lançado em DVD, também há pouco tempo, e pode ser obtido na livraria Cultura, por exemplo. Vale duplamente. Não só para avaliar o trabalho respeitoso e criativo de Pinter, como para ver o que é abordar a era vitoriana conjurando todas suas belas imagens, sem desperdiçar as questões importantes e latentes de um momento transformador. O lugar da mulher na sociedade, quando ela tinha que vencer as limitações de quem não nasceu na classe certa. O darwinismo e os dilemas do discurso científico. E, marca registrada de Fowles, o dedo na ferida do discurso amoroso: o que é melhor numa relação, a verdade sensaborona ou as fantasias instigantes com que a recobrimos?

domingo, 5 de julho de 2009

A LUZ NA ESCURIDÃO


" Imagine a cena: cerca de trinta pessoas sentadas em um ambiente escuro. O local é o porão do Grand Café em Paris, França. É o dia 28 de dezembro de 1895. As pessoas vieram assistir à última descoberta tecnológica do incrível século dezenove.
Os espectadores não sabem exatamente o que verão, mas esperam ser extasiados. Essa é a era em que novidades maravilhosas brotam diariamente. Nos últimos 20 anos eles testemunharam a iluminação das cidades, ouviram a voz humana ser lançada através de cabos e máquinas que falam e cantam, ficaram esgazeados vendo subir arranha-céus, e muito mais.
Subitamente, um facho de luz vindo de trás da audiência brilha numa superfície pendurada numa parede distante. Então, para surpresa de todos, imagens diferentes de tudo que já viram aparecem projetadas na superfície. Não são fotografias, apenas, nem desenhos animados. São pessoas reais, e elas estão andando de verdade!
O filme dura alguns minutos e é seguido por outro, intitulado "Trabalhadores saindo da Fábrica Lumière". É a fábrica do pai de Auguste e Louis Lumière, os irmãos franceses que fizeram esses filmes. Os filmes são preto e branco e os trabalhadores se movem de forma engraçada, salteada. Mas, ainda assim... são imagens de pessoas como são na vida real. Incrível!
Outros filmes seguem, todos com cenas da vida diária- "Alimentando o bebê", "A corrida de sacos", e até uma brincadeira, um garoto pisando numa mangueira de jardim, e quando o jardineiro olha para o final da mangueira, para ver porque a água não sai, o garoto levanta o pé e o jardineiro fica inteiro molhado.
Os filmes parecem tão reais que a sequência de um trem chegando na estação faz com que alguns espectadores gritem e corram procurando proteção, com medo de que um trem de verdade esteja a ponto de derrubar o teatro.
Após vinte minutos, as luzes acendem e o espetáculo acabou. Dez filmes curtos. Os primeiros filmes."

tradução de trecho extraído do livro Before Hollywood- from shadow play to silver screen, Paul Clee. New York: Clarion Books, 2005.

VER COM OS OLHOS DA IMAGINAÇÃO


A questão é antiga e mudou, com o tempo. Se antigamente qualquer professor ou pai tinha horror à ideia de que o filho não lia o livro, preferindo substitui-lo pelo filme, hoje o professor leva o filme para a sala de aula porque sabe que um abre a porta para o outro.
Já há algum tempo professores de história colocam seus alunos para assistir Brancaleone, de Mario Monicelli, para que entendam melhor a Idade Média, professores de literatura sugerem assistir Decameron, de Pasolini, para evitar o confronto com Bocaccio em alunos ainda pouco afeitos a linguagens não contemporâneas, professores de filosofia garantem que A Doce Vida, de Fellini pode ser a melhor introdução ao existencialismo.
Com os pais, dá-se o mesmo. É só se dar ao trabalho de experimentar. Pegar o filme na locadora, deixar o livro a postos, e pronto.
Pode existir passagem mais deliciosa para a literatura inglesa do século XVIII-XIX do que os filmes baseados em Jane Austen? Ver Orgulho e preconceito e depois ler o livro, página a página, é perceber que não há imagem que substitua o humor sutil da inglesa provinciana e modorrenta que hoje é cultuada em todo o mundo. Ou, ainda mais fácil. Ver O clube de leitura de Jane Austen e repassar, uma a uma, cada uma de suas obras e percebê-las atuais- quase livros de autoajuda!
Os filmes de Curabula é um jogo. Pegue um filme, um livro, busque o maior número de conexões, discuta, analise qual o melhor, o pior. Mas um fato é indiscutível: os olhos da imaginação fazem filmes insuperáveis e totalmente individuais. O caminho do filme ao livro é magnífico, e nada desprezível, mas não se compara ao caminho do livro ao filme. Quando os olhos da sua imaginação se reconhecem nos olhos da imaginação de um diretor, o prazer é incomparável.