Ao saír da sessão de Bastardos e Inglórios, novo filme do Tarantino, fixa-se, sem dar trégua, a figura do Coronel Hans Landa, o Caçador de Judeus. Mas não só a atuação de Christoph Waltz é a responsável por tal fascínio espontâneo. É sua inteligência, sem dúvida, uma das causas; digo mais, seu método.Desde a primeira cena do filme, em que Landa calmamente percebe a família judaica debaixo do assoalho, fica a máxima: pensar como o opositor. Muitos dos agentes falham porque nem avaliam o intelecto que se lhes opõe. Este foi o gatilho disparado em direção ao monsieur Auguste Dupin, de Edgar Alan Poe.
Em A carta roubada , Poe desmembra o raciocínio do detetive, e consegue analisar sua intuição por um filtro de cálculos cartesianos. Dupin apresenta a habilidade de fazer do que é próprio do humano, um esquema matemático. Com isso, não existem erros de cálculos – deu-lhe por achar a carta, é claro, simplesmente atirada sobre o porta-cartões.
Da mesma forma, o Hans Landa de Tarantino sabe, desde o momento que entra na casa da primeira cena, que a família vizinha não teria a habilidade para fugir para a Espanha. Era muito mais simples; a capacidade humana é muito mais simples: estariam escondidos onde mais se esperaria. Hans Landa explica ao francês, como o faz a todos que encontra, que apenas pensa como um judeu, que em situação de desepero foge de qualquer maneira, e por isso, sempre consegue encontrá-lo. Lembro agora que o mesmo faz o instrutor do FBI para descobrir o que faria Hannibal Lecter, em Silêncio dos Inocentes.
Pensar como o opositor – a identificação do intelecto do raciocinador com o do seu oponente, escreve Poe.
O que me surpreendeu no detetive de Tarantino, no entanto, é que Hans Landa não tem uma ética a seguir. Esta crítica pode ser considerada maniqueísta – e de forma alguma gostaria de ver este desenho levado ou ao bem ou ao mal. Minha frustração – agora explico – foi ver uma personalidade tão afiada e perspicaz, sem um objetivo maior. Hans Landa mostra-se, quando lhe é oportuno, não atrelado à SS (a milícia nazista). Sua perspicácia também é usada para o próprio benefício.
O que de início era uma crítica, no entanto, agora quer ser algo mais espetacular. Minha conclusão é de que Hans Landa de Tarantino é o primeiro detetive que ultrapassa o Dupin de Poe (claro que Poe tem seus méritos pelo pioneirismo). Hans Landa consegue surpreender o próprio espectador. Se fossemos reescrever A carta roubada à moda de Tarantino, Dupin, ao final, não devolveria o verdadeiro documento ao monsieur G., comissário de polícia. Ele forjaria uma carta, usaria de sua credibilidade para que fosse confiável, e ficaria com os méritos do herói, devolvendo ele próprio a carta à polícia. Dupin, com esta ação, deixaria inclusive o leitor com cara de bobo, assim como eu, ao sair da sessão de Tarantino.













