
A memória dos meus cinco anos não reteve nenhuma recordação de uma noite especial em 67. Uma noite em que se viu o sol nas bancas de revista e rodas-gigantes girando, girando, no parque e na vida, carregando o destino prá lá; uma noite em que uma viola ponteou em protesto cifrado contra a ditadura militar e outra foi arremessada sobre a plateia em reação ao protesto das vaias – contestar era a palavra de ordem. Primeiro conheci algumas das músicas, na adolescência, e somente depois, através de imagens de arquivo, soube que fizeram parte do histórico festival da Record. Essas imagens povoaram o meu imaginário com tamanha intensidade que ainda hoje duvido se não estive de fato no teatro da Paramount naquela noite de 21 de outubro. O documentário de Ricardo Calil e Renato Terra agrada ao público sem fazer esforço, até mesmo antes de ser visto. Se alguém conseguir ficar indiferente à comoção daquele momento "bom sujeito não é". As imagens do festival falam, (en) cantam por si. Difícil conter as lágrimas. "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia", profetizou Lulu (Santos). Da caixa de Pandora escaparam o melhor e o pior. Quando Chico Buarque dá um depoimento, no filme, que soa displicente e sem muito interesse, no fundo quer dizer que não se pode impunemente ser saudosista: se o período referendou o nascimento da MPB, com sua multiplicidade de facetas, foi, inegavelmente, uma página terrível na história do Brasil – uma ditadura às vésperas de recrudescer, cujas sequelas são visíveis até hoje.
O recorte feito pelos diretores, econômico, sim, porém coerente com a proposta de situar o evento como marco para profundas transformações estéticas e comportamentais no cenário cultural brasileiro, optou por focar apenas seis músicas, comentadas em entrevistas de bastidores e depoimentos atuais. Muito ficou de fora do documentário, com certeza, como a premiação de Elis Regina como melhor intérprete defendendo O Cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, importante num momento em que a cantora ressentia-se do encerramento do programa O Fino da Bossa. Também não se mencionou o prêmio de melhor letra concedido a Sidney Miller por A Estrada e o Violeiro, canção que interpretou ao lado de Nara Leão, uma das personagens mais antenadas do meio musical, sempre na vanguarda, transitando bem entre compositores bossanovistas, autores de músicas de protesto, nordestinos, sambistas de morro e, mais tarde, entre os tropicalistas.
Para melhor compreender a importância do festival de 67, contextualizá-lo historicamente e conhecer detalhes de cada fase, bem como os meandros do mercado fonográfico, o livro A Era dos Festivais, de Zuza Homem de Mello, é leitura obrigatória. Zuza aparece no doc relembrando, como testemunha ocular, sua participação no evento como técnico de som, sem deixar fluir, ali, a verve de historiador e crítico perspicaz. Em sua obra, ele narra que, nesse mesmo festival, subiram ao palco os novatos Martinho José Ferreira, só depois batizado "da Vila", com Menina Moça; Toquinho e Vitor Martins, com Belinha; e o baiano Antônio Marques Pinto, que se tornou conhecido como Antônio Carlos na dupla com Jocafi, apresentando Festa no Terreiro de Alaketu. Tom Zé também estava lá, bem-comportado, lançando a singela A Moreninha. Geraldo Vandré, após a disputa acirrada no festival anterior entre Disparada, na voz de Jair Rodrigues, e A Banda, não conseguiu empolgar o público com Ventania - ele viria a ser ovacionado novamente em 68 ao entoar o hino de protesto Prá não dizer que não falei de flores. E Pixinguinha teve seu samba, com letra do poeta Hermínio Bello de Carvalho, desclassificado: Isso Não Se Faz (não mesmo!).
Mas, o que fez do III Festival da Record tão importante? Uma frase de Ferreira Gullar, membro do júri, talvez sinalize a resposta: "A música popular é a grande manifestação do povo brasileiro". Quando uma parte considerável da plateia vaiou Sérgio Ricardo, conhecido por seu ativismo político, ao interpretar Beto Bom de Bola, que elencava futebol e samba como paixões nacionais, estava marcando posição, além de extravasar uma energia reprimida. Até então os organizadores dos festivais tinham muito cuidado na escolha dos jurados para que não tendessem mais para a esquerda ou para a direita, pois o público, embora majoritariamente estudantil, era eclético e englobava várias torcidas, incluindo os fãs da Jovem Guarda, por exemplo, que aplaudiam Roberto Carlos mesmo cantando (e bem) um samba (Maria, Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná), enquanto os opositores gritavam "Fora!". Naquele ano ficou claro que se esperava da música popular uma atitude revolucionária, uma voz de protesto.
A atitude e o protesto trilharam caminhos que muitos consideram, equivocadamente creio eu, antagônicos. Estigmatizados como "bons moços", Chico e Edu, dentre outros, continuaram criando, com autenticidade, a sua música, tentando driblar a censura poeticamente, como haviam feito em Roda Viva ("A gente quer ter voz ativa/no nosso destino mandar/mas eis que chega a roda viva/ e carrega o destino prá lá") e Ponteio ("Correndo no meio do mundo/Não deixo a viola de lado/Vou ver o tempo mudado/E um novo lugar prá cantar..."). Gil e Caetano, ao introduzirem a guitarra elétrica em Domingo no Parque e Alegria, Alegria, flertaram com o pop e deram o primeiro passo para uma vital revolução estética, e comportamental, que estava por vir: a Tropicália - neologismo inventado pelo artista plástico Hélio Oiticica para uma instalação em que desconstruía o mito do paraíso tropical.
Usar ou não guitarras elétricas em um arranjo pode parecer hoje um dilema sem sentido, uma decisão meramente estética. Mas, em 1967 era uma questão política. A manifestação que ficou conhecida como "Passeata contra as guitarras elétricas", encabeçada por Elis Regina e Geraldo Vandré, tinha cunho nacionalista em favor da música brasileira e contra a alienação do iê-iê-iê. O depoimento, sincero e pungente, de Gilberto Gil, no documentário de Calil e Terra, expressa bem a contradição por ele vivida, dividido entre a causa política e o fascínio pela música dos Beatles, que lhe descortinava novas possibilidades rumo à fusão de gêneros e ritmos, a uma "música universal". O pânico que quase o impediu de participar do Festival da Record prenunciava a ruptura com o establishment, exacerbada em 68 pelo Tropicalismo. Da ousadia de Gil, que, mesmo tendo participado da passeata, subiu ao palco acompanhado pelos Mutantes para executar o magnífico arranjo de Rogério Duprat, resultou a mágica harmonização entre berimbau, guitarra e baixo elétricos: "O sorvete é morango/É vermelho!/Oi, girando e a rosa/É vermelha!/Oi girando, girando/É vermelha!/Oi, girando, girando..." Dá até vertigem. É pouco provável que haja outra música digamos ... interdisciplinar como esta: cinematográfica, dramática, literária, pictórica, sensorial ... genial!
A década de 60 foi de fato um dos períodos mais criativos para a música popular brasileira, recheada de obras-primas e agitada por movimentos, debates, reflexões e engajamento. Uma época em que um festival de música mobilizava multidões como se fosse Copa do Mundo - "nós éramos como cavalos no páreo", disse Edu Lobo ao se referir às apostas realizadas pelas torcidas. Uma época em que a sociedade se organizava para lutar por uma causa, um ideal, uma paixão. Boa parte dos protagonistas dessa cena "caiu" após a decretação do AI-5 e os festivais entraram em declínio. "A classe média fardada, que é moralista, encarava Chico, Vandré e Sérgio Ricardo como um militar vê um inimigo, enquanto os baianos, Gil e Caetano, representavam um desacato, não coincidindo com a imagem por ela desejada como exemplo para o povo brasileiro", conclui Zuza Homem de Mello.
Ao som dos acordes de "caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento" eu segui vivendo, sob o sol da abertura política. A geração dos festivais me ensinou a acreditar na utopia, na construção de um mundo melhor. No entanto, de tempos em tempos, voltam a minha mente, ecoando de uma pirâmide crescente de vozes, os únicos versos capazes de traduzir com precisão um sentimento de impotência que me invade: "tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente/ ou foi o mundo então que cresceu ..." Mas o que importa é que sempre haverá uma viola prá cantar.