EM CARTAZ

terça-feira, 12 de outubro de 2010

HOMENS E DEUSES, por Gina Louise

(Des hommes et des dieux, Xavier Beauvois - França) - A leitura da sinopse pode dar a impressão de se tratar de um filme entediante: a história, inspirada em fatos reais, de oito monges franceses que vivem sua rotina num mosteiro da Argélia, ajudando a comunidade local, majoritariamente muçulmana, até a paz ser ameaçada por ataques de fundamentalistas islâmicos. Beauvois cria, no entanto, uma aura de tal forma envolvente que seduz o espectador tanto pela contemplação do cotidiano no mosteiro, em que os cânticos religiosos entoados por vozes "divinas" transmitem beleza e serenidade, como pela abordagem honesta de um dos temas mais polêmicos da atualidade: o "terrorismo" - separando com sabedoria o joio do trigo. O filme recebeu, merecidamente, o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes.

Um elenco impecável, encabeçado por Lambert Wilson, confere a cada um dos monges dimensão humana. Dúvida, medo, doação, generosidade e fé entram em conflito numa situação limite, quando a própria vida está em jogo –ali não há heróis nem deuses, mas homens. Comovente a cena em que os monges decidem se vão abandonar o seu "rebanho" muçulmano, para o qual representam os "galhos firmes da árvore em que estão pousados", ou permanecer entre eles, sabendo que podem ser mortos. Também memorável aquela em que se encontram frente a frente os líderes do mosteiro e de uma facção islâmica, estabelecendo-se um diálogo pautado pelo respeito mútuo, apesar do antagonismo de crenças e atos.

Se motivos religiosos são capazes de fazer o homem praticar o mal com empenho e felicidade jamais vistos, como disse Pascal, o poder político e econômico também faz estragos muitas vezes irreparáveis. Xavier Beauvois não exime a França de sua parcela de culpa pelos conflitos de cunho "aparentemente" apenas religioso em curso em ex-colônias africanas. No filme, o governo argelino atribui à colonização, que os manteve atrasados, as causas mais profundas para a formação e crescimento dos grupos radicais. Contrapondo-se às motivações de domínio, ganância e prepotência, a postura dos monges, solidária e autêntica, de entrega total à fé e a serviço do próximo, ecoa como um alento de esperança na humanidade. Uma humanidade que se reencontra com sua face divina.


VIÚVAS SEMPRE ÀS QUINTAS, por Gina Louise

Viúvas sempre às quintas (Marcelo Piñeyro-Argentina) - O cinema argentino nos presenteou nesse festival com mais uma grande obra. Marcelo Piñeyro, diretor de Plata Quemada, El Metodo (O que você faria?), Cinzas do Paraíso entre outros bons filmes, foca o seu olhar perturbador – que, guardadas as devidas proporções, em alguns momentos faz lembrar Michael Haneke – na vida entremuros de um condomínio de elite de Buenos Aires. Num rápido percurso a câmera revela o lado de fora do condomínio: uma vizinhança pobre alijada do conforto e luxo que os personagens desfrutam. Mas, nem tudo é perfeito. As cercas não impedem que a crise econômica invada a vida dos protagonistas e, maior ainda que ela, a crise de valores. Aos poucos a harmonia e o branco do vestuário, na cena inicial de uma sofisticada festa de aniversário, vão se tingindo de cinza e sangue. Um roteiro muito bem costurado conduz o espectador passo a passo pelos cantos escondidos do universo material e psicológico de uma burguesia perdida em suas próprias opções de vida.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

AMORES IMAGINÁRIOS, por Gina Louise


O primeiro filme de Dolan (Canadá), exibido ano passado no FestRio, Eu Matei Minha Mãe, causou tamanho frisson que a expectativa em relação ao seu segundo longa foi maximizada. Seria essa a causa de uma pequena frustração? Ainda que menos impactante que a primeira obra desse artista polivalente (diretor, roteirista, ator, figurinista e muito mais), Amores Imaginários é um filme delicioso. Partindo de um argumento mínimo - a paixão/veneração de dois jovens amigos, Marie (a expressiva Monia Chokri) e Francis (Xavier Dolan), por Nico (Niels Schneider), um garoto loiro de cabelos cacheados (verdadeiro David renascentista aos olhos dos enamorados) -, o encanto do filme encontra-se na narrativa.
Embalados pelo hit romântico Bang Bang, na versão italiana interpretada por Dalida, os personagens são acompanhados pela câmera em slow-motion, deixando-nos hipnotizados. Cada gesto, cada elemento de cena, o figurino vintage de Marie, as cores escolhidas para flagrar os momentos de intimidade com parceiros furtivos, e nunca com o real objeto do desejo, tudo, tudo no filme compõe uma atmosfera pop intimista que faz paródia de si mesma, apropriando-se de linguagem publicitária, clichês, papos de redes sociais. Se "todo apaixonado vira um adolescente", creio que o público, de que idade for, vai projetar-se nas ilusões e desilusões dos personagens. O próprio filme dialoga com sentimentos e experiências amorosas de outros jovens, em depoimentos inseridos em tom de reality-show. Bom humor, diálogos inteligentes, olhar crítico e criatividade não faltam a Dolan. Com a autoridade dos seus 21 anos, ele fala sobre aquilo que conhece bem. Para muita gente isso é defeito. Penso ser um mérito. Amores, imaginários ou não, merecem ser vividos e expressados poeticamente.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

UMA FAMÍLiA – PERNILLE FISCHER CHRISTENSEN, por Gina Louise

Pão e cinema são duas coisas que a Dinamarca faz muito bem. Imaginem então a união disso nas telas. Ao "narrar" a história de uma família renomada de padeiros, fornecedores da família real, ao som de uma trilha sonora de primeira, Christensen (diretora do ótimo A Soap -2006) transporta o espectador para o centro do furacão de dúvidas e sentimentos contraditórios que atormentam a personagem Ditte (Lene Maria Christensen) ao saber da doença terminal de seu amado pai, oscilando entre manter a tradição familiar e atender a vontade do pai ou realizar seu próprios sonhos. Calcado em fortes interpretações e no universo familiar, claustrofóbico e torturante, o filme culmina em uma das mais belas e tristes cenas do cinema ao "capturar" o momento da morte. Um filmaço. Tristíssimo.

COPACABANA - DE MARC FITOUSSI, por Gina Louise

Dizer que Isabelle Huppert é superbe chega a ser redundante. Mas, não consigo imaginar outra atriz fazendo o papel de Babou, forte candidata ao roll das personagens femininas antológicas. Com aquela cara de danadinha que só ela tem, Huppert consegue, sutilmente, em uma expressão, um olhar, desnudar todas as contradições e a complexidade humana de uma mulher anticonvencional, livre, leve e solta, que tem, como poucos, a coragem de viver a vida como gosta, mesmo sabendo que tudo tem um preço – no seu caso a admiração e o respeito da filha. Brincando de forma bem humorada com o exotismo cultural, o diretor recheia o filme com boa música brasileira e transforma o Rio de Janeiro em sonho de uma última (quem sabe?) fuga aventureira da personagem. Uma comédia dramática inteligente, cativante e realmente divertida do início ao fim.

FESTIVAL DO RIO – A PRIMAVERA CHEGOU, por Gina Louise

A primavera chegou e um perfume especial se espalha pelo Rio de Janeiro. Calma... não vou aqui falar de flores, pelo menos não no sentido literal da palavra. O perfume a que me refiro é um bálsamo diferente. Mais de 300 filmes do mundo inteiro desembarcam na cidade para alegria de cinéfilos e amantes da sétima arte. O Festival do Rio começou no dia 23, para contradizer quem acredita que as salas de cinema deixarão de existir um dia, solapadas pela avalanche de novas tecnologias que possibilitam o acesso individual aos filmes.
Fellini disse certa vez em um texto: "Ir ao cinema é como voltar ao útero. Você se senta no escuro e fica esperando, com a inocência de um feto, a tela acender como a luz da vida". Esta definição me ajudou a compreender o sentimento mágico que sempre toma conta de mim quando entro numa sala escura na expectativa de mergulhar em outros mundos, outras vidas. E o mais fascinante é que essa experiência é coletiva, enriquecida pela troca de energia, ideias e emoções. Quando a sala está lotada de espectadores sintonizados, hipnotizados pela mesma magia, há um perfume no ar que só quem partilha desse vício consegue perceber. Pura poesia.
Difícil mesmo em época de FestRio é montar a programação, fazer escolhas. "Abandonar" um filme em favor de outro, descobrir novos diretores ou prestigiar os mais conhecidos: são muitos os dilemas já que não é possível ver tudo, embora a gente se esforce ao máximo. Como de praxe, o evento traz obras premiadas nos importantes festivais – Cannes, Veneza, Berlim e mostras menores. Tentarei partilhar nesses dias impressões sobre alguns filmes já vistos, dar uma ou outra dica, lembrando, entretanto, que há filmes para todos os gostos e todas as tribos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

UMA NOITE EM 67 – NADA DO QUE FOI SERÁ, por Gina Louise


A memória dos meus cinco anos não reteve nenhuma recordação de uma noite especial em 67. Uma noite em que se viu o sol nas bancas de revista e rodas-gigantes girando, girando, no parque e na vida, carregando o destino prá lá; uma noite em que uma viola ponteou em protesto cifrado contra a ditadura militar e outra foi arremessada sobre a plateia em reação ao protesto das vaias – contestar era a palavra de ordem. Primeiro conheci algumas das músicas, na adolescência, e somente depois, através de imagens de arquivo, soube que fizeram parte do histórico festival da Record. Essas imagens povoaram o meu imaginário com tamanha intensidade que ainda hoje duvido se não estive de fato no teatro da Paramount naquela noite de 21 de outubro.
O documentário de Ricardo Calil e Renato Terra agrada ao público sem fazer esforço, até mesmo antes de ser visto. Se alguém conseguir ficar indiferente à comoção daquele momento "bom sujeito não é". As imagens do festival falam, (en) cantam por si. Difícil conter as lágrimas. "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia", profetizou Lulu (Santos). Da caixa de Pandora escaparam o melhor e o pior. Quando Chico Buarque dá um depoimento, no filme, que soa displicente e sem muito interesse, no fundo quer dizer que não se pode impunemente ser saudosista: se o período referendou o nascimento da MPB, com sua multiplicidade de facetas, foi, inegavelmente, uma página terrível na história do Brasil – uma ditadura às vésperas de recrudescer, cujas sequelas são visíveis até hoje.
O recorte feito pelos diretores, econômico, sim, porém coerente com a proposta de situar o evento como marco para profundas transformações estéticas e comportamentais no cenário cultural brasileiro, optou por focar apenas seis músicas, comentadas em entrevistas de bastidores e depoimentos atuais. Muito ficou de fora do documentário, com certeza, como a premiação de Elis Regina como melhor intérprete defendendo O Cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, importante num momento em que a cantora ressentia-se do encerramento do programa O Fino da Bossa. Também não se mencionou o prêmio de melhor letra concedido a Sidney Miller por A Estrada e o Violeiro, canção que interpretou ao lado de Nara Leão, uma das personagens mais antenadas do meio musical, sempre na vanguarda, transitando bem entre compositores bossanovistas, autores de músicas de protesto, nordestinos, sambistas de morro e, mais tarde, entre os tropicalistas.
Para melhor compreender a importância do festival de 67, contextualizá-lo historicamente e conhecer detalhes de cada fase, bem como os meandros do mercado fonográfico, o livro A Era dos Festivais, de Zuza Homem de Mello, é leitura obrigatória. Zuza aparece no doc relembrando, como testemunha ocular, sua participação no evento como técnico de som, sem deixar fluir, ali, a verve de historiador e crítico perspicaz. Em sua obra, ele narra que, nesse mesmo festival, subiram ao palco os novatos Martinho José Ferreira, só depois batizado "da Vila", com Menina Moça; Toquinho e Vitor Martins, com Belinha; e o baiano Antônio Marques Pinto, que se tornou conhecido como Antônio Carlos na dupla com Jocafi, apresentando Festa no Terreiro de Alaketu. Tom Zé também estava lá, bem-comportado, lançando a singela A Moreninha. Geraldo Vandré, após a disputa acirrada no festival anterior entre Disparada, na voz de Jair Rodrigues, e A Banda, não conseguiu empolgar o público com Ventania - ele viria a ser ovacionado novamente em 68 ao entoar o hino de protesto Prá não dizer que não falei de flores. E Pixinguinha teve seu samba, com letra do poeta Hermínio Bello de Carvalho, desclassificado: Isso Não Se Faz (não mesmo!).
Mas, o que fez do III Festival da Record tão importante? Uma frase de Ferreira Gullar, membro do júri, talvez sinalize a resposta: "A música popular é a grande manifestação do povo brasileiro". Quando uma parte considerável da plateia vaiou Sérgio Ricardo, conhecido por seu ativismo político, ao interpretar Beto Bom de Bola, que elencava futebol e samba como paixões nacionais, estava marcando posição, além de extravasar uma energia reprimida. Até então os organizadores dos festivais tinham muito cuidado na escolha dos jurados para que não tendessem mais para a esquerda ou para a direita, pois o público, embora majoritariamente estudantil, era eclético e englobava várias torcidas, incluindo os fãs da Jovem Guarda, por exemplo, que aplaudiam Roberto Carlos mesmo cantando (e bem) um samba (Maria, Carnaval e Cinzas, de Luiz Carlos Paraná), enquanto os opositores gritavam "Fora!". Naquele ano ficou claro que se esperava da música popular uma atitude revolucionária, uma voz de protesto.
A atitude e o protesto trilharam caminhos que muitos consideram, equivocadamente creio eu, antagônicos. Estigmatizados como "bons moços", Chico e Edu, dentre outros, continuaram criando, com autenticidade, a sua música, tentando driblar a censura poeticamente, como haviam feito em Roda Viva ("A gente quer ter voz ativa/no nosso destino mandar/mas eis que chega a roda viva/ e carrega o destino prá lá") e Ponteio ("Correndo no meio do mundo/Não deixo a viola de lado/Vou ver o tempo mudado/E um novo lugar prá cantar..."). Gil e Caetano, ao introduzirem a guitarra elétrica em Domingo no Parque e Alegria, Alegria, flertaram com o pop e deram o primeiro passo para uma vital revolução estética, e comportamental, que estava por vir: a Tropicália - neologismo inventado pelo artista plástico Hélio Oiticica para uma instalação em que desconstruía o mito do paraíso tropical.
Usar ou não guitarras elétricas em um arranjo pode parecer hoje um dilema sem sentido, uma decisão meramente estética. Mas, em 1967 era uma questão política. A manifestação que ficou conhecida como "Passeata contra as guitarras elétricas", encabeçada por Elis Regina e Geraldo Vandré, tinha cunho nacionalista em favor da música brasileira e contra a alienação do iê-iê-iê. O depoimento, sincero e pungente, de Gilberto Gil, no documentário de Calil e Terra, expressa bem a contradição por ele vivida, dividido entre a causa política e o fascínio pela música dos Beatles, que lhe descortinava novas possibilidades rumo à fusão de gêneros e ritmos, a uma "música universal". O pânico que quase o impediu de participar do Festival da Record prenunciava a ruptura com o establishment, exacerbada em 68 pelo Tropicalismo. Da ousadia de Gil, que, mesmo tendo participado da passeata, subiu ao palco acompanhado pelos Mutantes para executar o magnífico arranjo de Rogério Duprat, resultou a mágica harmonização entre berimbau, guitarra e baixo elétricos: "O sorvete é morango/É vermelho!/Oi, girando e a rosa/É vermelha!/Oi girando, girando/É vermelha!/Oi, girando, girando..." Dá até vertigem. É pouco provável que haja outra música digamos ... interdisciplinar como esta: cinematográfica, dramática, literária, pictórica, sensorial ... genial!
A década de 60 foi de fato um dos períodos mais criativos para a música popular brasileira, recheada de obras-primas e agitada por movimentos, debates, reflexões e engajamento. Uma época em que um festival de música mobilizava multidões como se fosse Copa do Mundo - "nós éramos como cavalos no páreo", disse Edu Lobo ao se referir às apostas realizadas pelas torcidas. Uma época em que a sociedade se organizava para lutar por uma causa, um ideal, uma paixão. Boa parte dos protagonistas dessa cena "caiu" após a decretação do AI-5 e os festivais entraram em declínio. "A classe média fardada, que é moralista, encarava Chico, Vandré e Sérgio Ricardo como um militar vê um inimigo, enquanto os baianos, Gil e Caetano, representavam um desacato, não coincidindo com a imagem por ela desejada como exemplo para o povo brasileiro", conclui Zuza Homem de Mello.
Ao som dos acordes de "caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento" eu segui vivendo, sob o sol da abertura política. A geração dos festivais me ensinou a acreditar na utopia, na construção de um mundo melhor. No entanto, de tempos em tempos, voltam a minha mente, ecoando de uma pirâmide crescente de vozes, os únicos versos capazes de traduzir com precisão um sentimento de impotência que me invade: "tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente/ ou foi o mundo então que cresceu ..." Mas o que importa é que sempre haverá uma viola prá cantar.

domingo, 19 de setembro de 2010

A ORIGEM – SONHOS, SONHOS SÃO, Por Gina Louise

Dia desses, quando estava na fila para ver um filme da mostra Russ Meyer, no CCBB, brinquei com um amigo que, como alguns outros, se disse deslumbrado com A Origem, de Christopher Nolan: "olha, eu não bebi desse chazinho que vocês tomaram antes da sessão, não!" Apesar do visual arrebatador de algumas cenas, especialmente aquelas em que Paris aparece numa perspectiva jamais vista, fechando-se em si mesma, e de um elenco afinado, com belo solo de Marion Cotillard, o filme não me diz muito, limitando-se a um blockbuster bem feito que, como tal, encerra-se nos créditos finais. Nada a refletir, nenhum dever de casa. Após a sessão, voltei aos sonhos anárquicos do meu mundo imaginário, que mais se assemelha ao do Dr. Parnassus (Terry Gilliam).
Se, no entender de alguns teóricos como Edgar Morin, "o cinema é um simulacro do sonho", os labirintos do inconsciente vêm, ao longo da história da sétima arte, fascinando os mais diferentes diretores. Buñuel, surrealista por excelência, costurou sonho e realidade em suas obras com maestria, chegando à extrema ousadia de mostrar, em Um Cão Andaluz, uma navalha cortando um olho: para ver é preciso olhar para dentro. Salvador Dalí, autor de telas alucinantes, foi seu parceiro nessa viagem. Cocteau colocou Orfeu frente ao espelho - portal simbólico de ligação entre dois mundos.
Bergman poderia ter sido, quem sabe, um discípulo genial de Freud, afinal trabalhou com requinte elementos como condensação e deslocamento em sonhos de seus personagens (o ancião de Morangos Silvestres duplica-se em o morto dentro do caixão e a mão que o puxa). E o que dizer de David Lynch, para quem a barreira do tempo há muito já foi rompida? "Amanhã pode ser ontem... eu me lembro de depois de amanhã", diz a personagem de Laura Dern em Império dos Sonhos. Precisaríamos de horas e horas para relembrar filmes, cenas, ideias que promoveram um mergulho interior: de Kurosawa (em Sonhos, os seus próprios foram "transpostos" para a tela) a Woody Allen (inesquecível o universo onírico do metalinguístico A Rosa Púrpura do Cairo), com uma parada necessária em Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembranças; Sinédoque, Nova York). Fellini, então, é assunto para uma longa conversa.
Não foi, no entanto, nenhuma dessas ideias que Nolan "roubou" para dar vida a Don "Corleone" Cobb (Leonardo DiCaprio) – um "extrator" de ideias dos sonhos alheios. Os tempos são outros e até os sonhos tornaram-se virtuais. A Origem (Inception) formata-se como filme de ação em que a espionagem industrial atingiu tal nível de sofisticação que especialistas são contratados para invadir os sonhos das vítimas, recriando-os com arquitetura própria, com a finalidade de extrair ou inserir ideias de acordo com o objetivo do cliente. Impressionante é que o personagem de DiCaprio, atormentado por seus fantasmas pessoais, parece tão bom moço que o público acaba esquecendo-se da falta de ética de sua atividade, criminosa porém emocionante e com um quê de artística – comparável, nas devidas proporções, a de um cineasta. Até aí nada de novo, o cinema está repleto de bandidos atraentes. Se bem que interferir na psiqué do próximo sem autorização, convenhamos, é muito diferente de arrombar um cofre. A CIA deve adorar a idéia.
O que mais me incomoda no filme, ao contrário de alguns críticos que o acham confuso, é o excesso de explicação e organização. Tudo certinho demais. Parece novela da Globo: quando uma palavra é dita em italiano, logo em seguida o personagem a repete em português, para não haver dúvida quanto ao entendimento por parte do público. Em A Origem, uma cena explica a anterior e prepara o campo para a seguinte. Os cenários projetados por um arquiteto de sonhos são perfeitos, bonitos, limpos, e o procedimento planejado pela equipe somente sofre interferências quando o inconsciente de Cobb recebe a visita (in)desejada da mulher Mal (Cotillard) – difícil engolir que ele seja o único personagem "Mal"-resolvido, que luta contra sentimentos de culpa e dores do passado. Não há perturbação de "fantasmas", por exemplo, no sonho do herdeiro (Cillian Murphy), que acabou de perder o pai com quem amargava uma relação conflituosa. Jung ficaria frustrado diante da pobreza simbólica desses sonhos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

OS MELHORES SONHOS ROUBADOS, por Gina Louise

Três meninas, três pedidos. Uma queria que o avô, sua única referência familiar, ficasse bom ... não, esse seria um sonho adulto, correto: o seu pedido espontâneo era um objeto ligado ao desejo: a calça jeans abandonada na loja por falta de grana. Outra, romântica, queria beijos e juras de amor sem fim, mesmo vindos de um improvável príncipe, o traficante do pedaço. A terceira, mais novinha, acalentava um sonho esnobado por muita garota de estrato social mais alto: uma festa de quinze anos - festa que seria pretexto para a aproximação do pai ausente.
As meninas de Sandra Werneck, materializadas na tela a partir de dados do livro documental “As Meninas da Esquina”, de Eliane Trindade, transitam num universo muito diferente daquele em que afloram os dilemas e sonhos dos adolescentes de Laís Bodanzky, estes baseados na série de livros “Mano” de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. Enquanto em “Sonhos Roubados” a sobrevivência na favela carioca ocupa o primeiro lugar na ordem do dia, para os jovens de classe média paulistana de “As Melhores Coisas do Mundo” há espaço de sobra para a exacerbação da subjetividade.
Isolando-se os fatores econômicos e sociais, a essência dos personagens dos dois filmes talvez não seja tão diversa. A personalidade em formação, com todas as angústias e incertezas em contraponto a uma extraordinária energia vital e ego inflado, é comum a todo (ou quase todo) adolescente. Mas, a identidade que se consolidará a partir das experiências pessoais, e seus reflexos psicológicos, trará as marcas do que cada um viveu.
A forma como se dá a descoberta da sexualidade e se estabelece os referenciais familiar e escolar, alicerces para a vida adulta, representam provavelmente as diferenças mais significativas entre os grupos. Se, para os meninos de classe média Mano, Carol, Deco, Miguel, a sexualidade ainda é envolvida numa aura de mistério, de afirmação pessoal ou ideal romântico, para Jéssica, Sabrina e Daiane, de “Sonhos Roubados”, ela vem com o invólucro de mercadoria, objeto de troca de favores ou venda – trazendo ainda como consequência para algumas o peso de uma barriga. E, o que é pior, muito mais associada a exploração, violência e abuso do que ao amor.
Se a família de Mano (interpretado pelo ator revelação Francisco Miguez), com todos os conflitos desencadeados pela opção sexual do pai (Zeca Machado), mantém-se ainda assim presente, buscando prover, amparar e entender os filhos, o mesmo não ocorre com as meninas. Há uma comovente cena em que Jéssica (Nanda Costa, uma forte presença na tela) e Daiane (Amanda Diniz) estão olhando a avenida do alto de um viaduto, onde Jéssica ia na companhia da mãe quando pequena para “contar os carros vermelhos”. A partir dessa recordação, Daiane diz que deveria haver uma regra: mãe não podia morrer nunca. Sabrina (Kika Farias) tem mãe viva, no entanto é rejeitada por ela. No filme, a figura paterna inexiste, é precária ou deformada, como no caso do tio pedófilo encarnado por Daniel Dantas. Com a desestruturação das famílias, as meninas são obrigadas a “se virar” para sobreviver e assumem na prática as rédeas de suas próprias vidas.
Em “As Melhores Coisas do Mundo”, a escola é o cenário predominante. Escola como fonte de aprendizado formal e informal, espaço fervilhante onde são expostos e confrontados preconceitos, valores, verdade e invenção; onde a invasão de privacidade opõe-se à preservação dos sentimentos mais íntimos e autênticos. Como discursou Mano durante a campanha estudantil, um espaço que tinha se tornado um big brother do mau, mas pelo qual se deveria lutar para que prevalecesse a amizade verdadeira, a solidariedade e o senso ético de justiça. Na periferia, a escola talvez seja mais do que um sonho roubado, seja a esperança roubada de um futuro mais promissor e digno. Daiane adora quando não há aula, porque não aprende nada na escola, ou seja, a escola não cumpre o seu papel. Entre seus muros também não se constrói relações sociais e afetivas. Sem internet, é no asfalto que elas navegam com desenvoltura.
Sandra Werneck faz uma abordagem a um só tempo sociológica e existencial. Se cada uma das três personagens centrais é, como nos versos do Chico, uma menina igual a mil das periferias brasileiras, elas conseguem, entretanto, atrair o nosso olhar, nos convidando a vê-las de perto, com carinho. E de perto elas têm carne, osso, vida e nome próprio. Apesar de no seu mundo as melhores coisas terem sido roubadas, elas procuram reinventá-las cotidianamente, buscando outras formas de afeto – a solidariedade maternal da manicure (Marieta Severo), o amor companheiro do presidiário (MV Bill), a opção pela maternidade. Não há soluções fáceis em “Sonhos Roubados” nem um final bonitinho como o de “As Melhores Coisas do Mundo”, contudo uma leveza flui sempre que possível, mostrando a capacidade das meninas de encontrar alegria nas pequenas coisas, dançando conforme a música, mas no próprio ritmo.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ALICE BURTON, por Luciana Bastos Figueiredo



Escrever um post sobre a Alice do Tim Burton pode até ser óbvio nesses dias, mas será que é óbvio dizer que e odiei o filme?

Pois é, foi isso que aconteceu. Meu marido e eu fomos ver o filme na própria sexta da estreia, naquelas sessões de meia-noite. Ele estava animadíssimo desde que vimo o primeiro trailler. Eu observava, atenta, o movimento do mercado editorial e o crescimento da febre em torno do filme. Estava curiosa.

Eu gosto do Tim Burton, relevo o fato de ele colocar a mulher em todos os seus filmes - até porque ela é muito boa -, mas ele levou minha Alice embora! Somente sentada na poltrona, com a sala escura e os óculos 3D devidamente posicionados é que me dei conta do tamanho da minha expectativa em torno do filme. E como eu me decepcionei. Passagens chatas, lentas, personagens desvirtuados de suas essências... Nossa! O pior foi Alice ter ganhado uma função, um propósito explícito, uma missão no País das Maravilhas.

Alice não tem missão, tem um caminho cheio de surpresas. Um caminho ao mesmo tempo angustiante e viciante para o leitor. O livro tem ação, movimento. Mas sua aventura é mais com palavras que com atitudes. Buton transformou tudo isso em um thriller.

Tudo bem, tudo bem. Eu sei que é uma leitura. Que assim como eu tenho a minha Alice, o Burton tem a dele. Adaptações nunca são fiéis. Coisa e tal. Essa parte eu entendi, mas também acho legítimo eu querer a minha Alice de volta!

E, ora, eu consegui. A irritação foi tant que, no dia seguinte, eu já tinha caído no buraco do Coelho com ela de novo. E isso é Maravilhoso para mim.